{"id":8246,"date":"2015-04-01T12:10:39","date_gmt":"2015-04-01T12:10:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sgagora.com.br\/sg\/?p=8246"},"modified":"2015-04-01T12:10:39","modified_gmt":"2015-04-01T12:10:39","slug":"brasil-em-crise-quem-manda-mais-no-presidencialismo-presidente-ou-congresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sgagora.com.br\/sg\/brasil-em-crise-quem-manda-mais-no-presidencialismo-presidente-ou-congresso\/","title":{"rendered":"Brasil em crise: Quem manda mais no presidencialismo? Presidente ou Congresso?"},"content":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas semanas, a queda de bra\u00e7o com o\u00a0Congresso Nacional vem impedindo o governo de conseguir aprovar suas propostas ou manter seus vetos a legisla\u00e7\u00f5es aprovadas.<\/p>\n<p>Na disputa mais recente, envolvendo a renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas dos Estados e munic\u00edpios com a Uni\u00e3o, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), deu um recado claro: &#8220;A palavra final ser\u00e1 do Congresso Nacional&#8221;, disse, na semana passada.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara dos Deputados, liderada pelo tamb\u00e9m peemedebista Eduardo Cunha, j\u00e1 aprovou um projeto de lei que obriga o governo a trocar os indexadores que corrigem as d\u00edvidas (o que na pr\u00e1tica aliviar\u00e1 os d\u00e9bitos) em at\u00e9 30 dias. Se passar pelo Senado, o projeto poderia ser vetado pela presidente Dilma Rousseff \u2500 mas o Congresso tem o poder de depois derrubar o veto, e foi justamente o que Calheiros garantiu que far\u00e1.<\/p>\n<p>Para resolver o impasse, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, negocia um acordo com os senadores, adiando a troca dos indexadores para 2016.<\/p>\n<p>Mas afinal, quem manda mais no regime presidencialista, o poder Legislativo ou o poder Executivo? Quem de fato tem o poder final de decidir?<\/p>\n<p>Formalmente, o Congresso d\u00e1 a \u00faltima palavra, j\u00e1 que pode derrubar os vetos da Presid\u00eancia. Mas na pr\u00e1tica, dizem cientistas pol\u00edticos, o que determina quem tem mais poder \u00e9 a conjuntura pol\u00edtica \u2500 e no momento ela est\u00e1 bem desfavor\u00e1vel para Dilma, que enfrenta den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras e baixo crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Segundo o professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da UFRJ Charles Pessanha, a Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 instituiu uma divis\u00e3o equilibrada de poder entre Executivo e Legislativo, mas o momento atual acaba permitindo uma lideran\u00e7a mais proeminente do Congresso.<\/p>\n<p>&#8220;Quando o presidente est\u00e1 forte, com 70% de popularidade, como no in\u00edcio do governo Dilma, o Congresso se encolhe. Mas quando ele deixa espa\u00e7o para os outros poderes, o Congresso se assanha. O problema \u00e9 que o governo est\u00e1 paralisado&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Pessanha exemplifica seu racioc\u00ednio citando o caso da demora da presidente em nomear um novo ministro para o STF, na vaga deixada por Joaquim Barbosa quando este se aposentou, h\u00e1 oito meses.<\/p>\n<p>Diante da lentid\u00e3o, a lideran\u00e7a do PMDB amea\u00e7a aprovar um projeto de lei que fixa prazo de 90 dias para que o presidente nomeie ministros do STF. De acordo com essa proposta, do senador Blairo Maggi (PR), o Congresso poderia escolher o novo juiz se o prazo n\u00e3o for respeitado.<\/p>\n<p><strong>Poderes do presidente<\/strong><\/p>\n<p>O professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ), Nelson Rojas, nota que h\u00e1 tr\u00eas instrumentos que d\u00e3o ao presidente brasileiro grande influ\u00eancia na agenda de vota\u00e7\u00e3o do Congresso: as medidas provis\u00f3rias (MPs, que t\u00eam for\u00e7a imediata de lei e passam a trancar a pauta de vota\u00e7\u00e3o do Congresso se n\u00e3o forem apreciadas em 45 dias), os projetos de lei com regime de urg\u00eancia (tamb\u00e9m trancam a pauta da vota\u00e7\u00e3o no mesmo prazo se n\u00e3o forem apreciados) e a possibilidade de vetar total ou parcialmente as leis aprovadas.<\/p>\n<p>Mesmo que o Congresso tenha a prerrogativa de n\u00e3o aprovar o que o governo prop\u00f5e, essas ferramentas permitem que os projetos do Executivo passem na frente da fila de vota\u00e7\u00e3o, observa o cientista pol\u00edtico. Al\u00e9m disso, como as medidas provis\u00f3rias passam a valer imediatamente, derrub\u00e1-las depois tem um custo maior.<\/p>\n<p>Se deputados ou senadores rejeitam uma medida provis\u00f3ria, os parlamentares t\u00eam que editar um decreto legislativo para &#8220;disciplinar os efeitos&#8221; que a MP tenha gerado at\u00e9 a vota\u00e7\u00e3o, esclarece o portal da C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>&#8220;O Congresso vota, mas o poder de iniciativa \u00e9 do governo. A MP passa a valer no momento em que ela \u00e9 editada, e isso \u00e9 muito poder. Ela altera o status quo imediatamente, e a revis\u00e3o disso depois \u00e9 mais custosa&#8221;, afirma Rojas.<\/p>\n<p>Esses instrumentos, no entanto, acabam sendo in\u00f3cuos se o poder Executivo n\u00e3o tem o apoio necess\u00e1rio no Congresso, afirma o professor.<br \/>\n&#8220;Esses atributos de poder n\u00e3o s\u00e3o atributos de imposi\u00e7\u00e3o, eles n\u00e3o significam que a presidente vai impor a sua agenda, significam que ela vai negociar a sua agenda em condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis do que se n\u00e3o houvesse a medida provis\u00f3ria ou o pedido de urg\u00eancia. Mas \u00e9 preciso negociar e o governo n\u00e3o tem sido eficiente nisso&#8221;, destacou.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.sgagora.com.br\/sg\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/150331013437_dilma_rousseff_epa_624x351_epa-e1427890109440.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8247\" src=\"https:\/\/www.sgagora.com.br\/sg\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/150331013437_dilma_rousseff_epa_624x351_epa-e1427890109440.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"337\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Transi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O analista pol\u00edtico da consultoria Tend\u00eancias Rafael Cortez tamb\u00e9m atribui o recente aumento de poder do Congresso \u00e0 conjuntura pol\u00edtica. Mas al\u00e9m disso ele tamb\u00e9m nota mudan\u00e7as institucionais que t\u00eam provocado uma &#8220;transi\u00e7\u00e3o lenta para um modelo mais equilibrado&#8221;. Ele observa que o presidente no Brasil tem mais poder por exemplo que o mandat\u00e1rio americano, mas que isso tem mudado aos poucos.<\/p>\n<p>At\u00e9 2001, por exemplo, o governo podia prorrogar indefinidamente suas medidas provis\u00f3rias. Uma emenda constitucional aprovada no Congresso naquele ano estabeleceu as regras atuais, dando prazo m\u00e1ximo de 120 dias para a validade das MPs e determinando o trancamento da pauta de vota\u00e7\u00e3o caso n\u00e3o sejam apreciadas em at\u00e9 45 dias em cada casa (Senado e C\u00e2mara).<\/p>\n<p>Outra mudan\u00e7a aprovada neste ano no Congresso por meio de emenda constitucional foi o &#8220;or\u00e7amento impositivo&#8221; \u2500 o governo passou a ser obrigado a liberar os recursos das emendas que os parlamentares t\u00eam direito de apresentar a cada ano ao Or\u00e7amento da Uni\u00e3o. Antes, os presidentes costumavam usar a libera\u00e7\u00e3o dessas verbas como instrumento de barganha para conseguir votos no Congresso.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o existe uma medida objetiva sobre quem manda mais no presidencialismo. Isso varia de acordo com o modelo de cada pa\u00eds&#8221;, nota Cortez.<br \/>\n&#8220;Nos Estados Unidos, por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 o instrumento da medida provis\u00f3ria, e o governo tem menos poder propositivo. Por outro lado, \u00e9 mais dif\u00edcil derrubar um veto presidencial l\u00e1, porque para isso \u00e9 preciso de 2\/3 dos votos do Congresso, enquanto no Brasil basta maioria simples (metade dos votos mais um)&#8221;.<\/p>\n<p>O modelo americano foi criado como um contraponto ao modelo brit\u00e2nico, parlamentarista, explica Cortez. Segundo ele, o objetivo dos americanos era justamente de que os poderes fossem equilibrados e as decis\u00f5es mais lentas. No parlamentarismo, por sua vez, o Poder Executivo \u00e9 muito poderoso e as decis\u00f5es s\u00e3o mais r\u00e1pidas, pois o primeiro-ministro \u00e9 eleito pelos parlamentares e necessariamente t\u00eam apoio da maioria. &#8220;H\u00e1 praticamente uma fus\u00e3o dos poderes Executivo e Legislativo&#8221;, observa.<\/p>\n<p><strong>Obama<\/strong><\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, a rela\u00e7\u00e3o entre Congresso e a Presid\u00eancia tamb\u00e9m tem atravessado um per\u00edodo especialmente turbulento sob o governo de Barack Obama.<\/p>\n<p>A queda de bra\u00e7o aumentou consideravelmente durante o segundo mandato de Obama, quando o Partido Republicano, que faz oposi\u00e7\u00e3o ao presidente americano, passou a controlar a C\u00e2mara dos Representantes (C\u00e2mara dos Deputados) e o Senado.<\/p>\n<p>Contrariando o Congresso, no entanto, Obama recorreu \u00e0 sua autoridade executiva para aprovar medidas pol\u00eamicas.<\/p>\n<p>Em dezembro, ele anunciou a retomada das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Cuba e aliviou uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 ilha.<\/p>\n<p>Segundo Eric Posner, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, o presidente pode agir por conta pr\u00f3pria em casos espec\u00edficos citados pela Constitui\u00e7\u00e3o ou quando previsto por legisla\u00e7\u00e3o aprovada pelo Congresso.<\/p>\n<p>&#8220;Como h\u00e1 centenas de leis que delegam poder ao presidente, ele tem uma imensa liberdade para agir por conta pr\u00f3pria&#8221;, diz Posner, acrescentando que a oposi\u00e7\u00e3o pode contestar na Justi\u00e7a a legalidade das a\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPara Saikrishna Prakash, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Virginia, Obama levou quatro anos &#8220;para perceber que era um presidente, e n\u00e3o um primeiro-ministro&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ele se deu conta de que, se quisesse que as coisas acontecessem, teria que fazer assim. Agir unilateralmente n\u00e3o \u00e9 a primeira op\u00e7\u00e3o, mas quando as outras avenidas est\u00e3o bloqueadas \u00e9 o que pode ser feito.&#8221;<br \/>\nOs juristas afirmam, por\u00e9m, que sem o apoio do Congresso a margem de a\u00e7\u00e3o de um presidente \u00e9 limitada. Ele n\u00e3o \u00e9 capaz de aprovar reformas ou grandes medidas que envolvam a realoca\u00e7\u00e3o de recursos do Or\u00e7amento.<\/p>\n<p>No caso cubano, por exemplo, Obama n\u00e3o tem autoridade para p\u00f4r fim ao maior obst\u00e1culo \u00e0 reaproxima\u00e7\u00e3o entre os dois pa\u00edses, o embargo comercial e financeiro americano \u00e0 ilha. S\u00f3 o Legislativo pode decidir encerrar o bloqueio, e n\u00e3o h\u00e1 sinais de que v\u00e1 faz\u00ea-lo t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>A crise entre Legislativo e Executivo nos Estados Unidos j\u00e1 foi pior. Nos anos 1990, a bancada republicana p\u00f4s em vota\u00e7\u00e3o o impeachment do ent\u00e3o presidente Bill Clinton, que acabou salvo pelo Senado.<br \/>\nJ\u00e1 o presidente Andrew Johnson (1865-1869) n\u00e3o teve a mesma sorte e foi for\u00e7ado pelo Congresso a renunciar em meio a disputas sobre as pol\u00edticas de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds ap\u00f3s a Guerra Civil americana.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.sgagora.com.br\/sg\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/150325021126_barack_obama_624x351_ap-e1427890150327.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8248\" src=\"https:\/\/www.sgagora.com.br\/sg\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/150325021126_barack_obama_624x351_ap-e1427890150327.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"337\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Reportagem: http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2015\/04\/150331_analise_quem_manda_mais_presidencialismo_ms_jf_lgb?ocid=socialflow_facebook<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas semanas, a queda de bra\u00e7o com o\u00a0Congresso Nacional vem impedindo o governo de conseguir aprovar suas propostas ou manter seus vetos a legisla\u00e7\u00f5es aprovadas. 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