Produtores de batata vivem realidades distintas em Minas Gerais

Foto Capa: Google Imagens

O agito das máquinas e a rapidez das mãos indicam que o trabalho existe, mesmo quando a recompensa está abaixo do esperado.

O sul de Minas Gerais é uma das regiões mais antigas do Brasil no cultivo da batata. Desde sempre o agricultor vive numa gangorra, com os altos e baixos do mercado e o momento de agora não está nada bom. É que o preço de venda não anda cobrindo os custos de produção.

No meio da lavoura, o produtor Júlio César Vilela não sai do telefone em busca da melhor negociação para seu produto. E os valores em questão são sempre pela saca de cinquenta quilos.

“Estamos brigando aí para ver se consegue um preço melhor. Devido a oferta das outras regiões ser maior, tá complicado a venda de batata e essa dificuldade vem desde de novembro do ano passado”, comenta.

Dessa vez, Júlio plantou 40 hectares, sendo uma parte em terras arrendadas no município de Pouso Alegre. Gastou cerca de R$ 33 mil por hectare e já estima o prejuízo. “Vai ter um prejuízo mais ou menos de R$ 15 mil, por hectare. Para fechar a conta, vamos ter que esperar um pouquinho e tentar a próxima”, afirma o agricultor.

Assim como Júlio, pelo menos 1.400 agricultores familiares enfrentam a mesma situação no sul de Minas. Rodrigo Beck é agrônomo da Emater e calcula que a batata esteja presente em pelo menos 60 municípios da região.

“Cerca aí de 63% das propriedades daqui da região são de até 20 hectares, ou seja, são pequenos produtores mesmo. Hoje o estado tem uma produção anual estimada em torno de um milhão e noventa e três mil toneladas de batata. Sendo que no sul de Minas, a produção representa 35% do total e a área em torno de 41%”explica Rodrigo Beck, agrônomo da Emater de Santa Rita de Caldas.

Os sete hectares da lavoura do agricultor Francisco Peçanha ajudam a compor esse cenário. “São seis meses de despesa, para chegar no final negativo. Já teve situações até piores, só que esse ano a gente tá com o custo muito elevado. Tá barato para vender e caro para produzir”, declara Francisco Peçanha, agricultor.

Os custos mais altos dessa safra têm a ver com o preço de adubos e defensivos. “Essa alta é devido a situação do dólar. Muitas vezes, quando você pega o custo do ano passado para esse ano, talvez uns 12%… Teve um reajuste de tabela no geral”, comenta Luiz Fortes, vendedor de insumos.

Mesmo com as atuais dificuldades, tem agricultor já garantindo o plantio para a próxima safra. É o caso do agricultor Divino Pereira, que vai diminuir só um pouco sua área de cultivo. “Não tem outra coisa a fazer. Tem que ir arriscando. Vou plantar 23 hectares. É um hectare, dois a menos. Vou plantar no final de outubro. Pode ser que até lá o preço esteja melhor ou pior”.

Tradicionalmente, a colheita da batata ocorre três vezes no ano. A maior delas é a chamada safra das águas, que vai de dezembro a março. Depois, vem a safra da seca, de abril a julho. E por fim, chega a safra de inverno, de agosto a novembro.

A produção no cerrado

No cerrado mineiro, alguns agricultores estão driblando esse calendário para atender a indústria o ano todo. As grandes extensões de terra, uma altitude de 1.250 metros e a possibilidade de fazer uma agricultura empresarial, transformaram o jeito de plantar batata na região.

A pouco mais de 500 Km de Pouso Alegre, no município de Serra do salitre, onde Marcelo de Carvalho tem 1.200 hectares de batata irrigada. “A batata no Cerrado tinha que ser feita de outra forma. Solos pobres, drenados, extremamente planos. E com textura, que possibilitava a mecanização. É um outro mundo, é uma outra realidade”, diz o agricultor.

Essa outra realidade deu aos agricultores do cerrado a oportunidade de fugir das grandes variações de preço. É que muitos deles só trabalham com contratos fechados previamente com as indústrias, e em contrapartida, eles precisam colher batata toda semana.

“Essa região é uma das poucas, talvez do mundo, que te possibilita produzir de janeiro a dezembro. Porque nós temos características de altitude, que mesmo nos períodos mais quentes do ano, você tem noites frias, que é uma uma situação sine qua non para a batata. Então, a gente tenta fazer essa alternância de variedades para poder ter uma oferta linear de batata”, explica Balerini.

Ao longo do ano, a propriedade alterna o cultivo de oito variedades. Para tirar as 45 mil toneladas anuais da terra, a fazenda conta com quatro colheitadeiras. A mais nova é uma vinda da Bélgica.

“Essa batata entra numa máquina que tira a terra, mas estraga menos a batata. Uma máquina dessas faz o trabalho de 100 a 120 pessoas. Tem a capacidade de colher mais ou menos 35 toneladas por hora, 10 hectares por dia. Tudo para machucar o mínimo possível a batata e mandar uma matéria-prima de qualidade para a indústria”, explica Daniel de Carvalho, agrônomo e agricultor.

Ao longo da colheita, a máquina vai acumulando as batatas. Quando o compartimento fica cheio, o volume é descarregado em caçambas espalhadas pela lavoura, que depois serão levadas por caminhões.

As batatas voltadas para a indústria são bem diferentes daquelas que a gente está acostumado a comprar nas feiras e nos supermercados. Além do colorido e dos formatos assim mais avantajados, o que elas têm mesmo de bom a gente não consegue enxergar.

“A batata nada mais é do que uma grande reserva de amido. O que a indústria busca é isso. O que menos ela tá preocupada é a cor da pele, se ela tá clara, se ela tá escura, a batata o que interessa é o que tá dentro da batata que é aquilo que a gente come. Quanto mais amido, mais matéria seca. Por consequência, muito mais crocância. Mais rendimento, mais paladar. Todo esforço de toda a cadeia é para que no final ele tenha essa qualidade esse prazer, que todo mundo tem, em comer uma batatinha”, explica Marcelo Balerini de Carvalho, agricultor.

Atrás de mais qualidade, onze variedades estão sendo testadas no laboratório da fazenda. “O grande desafio que nós temos nesse momento é buscar variedades produtivas e que tenham aptidão para armazenagem”, declara o agricultor Marcelo Balerini de Carvalho.

Para aumentar o prazo de armazenamento, a fazenda também aposta em câmaras frias de última geração, que têm umidade e temperatura controladas. São capazes de eliminar os gases gerados com a estocagem.

A profissionalização do cultivo no campo, somada ao crescente consumo de batata no Brasil tem estimulado altos investimentos na indústria. A mais nova unidade de beneficiamento do país foi inaugurada no início de 2017. A fábrica já nasceu gigante, com a meta de suprir 55% do mercado nacional de batata pré-frita congelada.

A um custo de R$ 200 milhões, o empreendimento erguido no município de Perdizes tem capacidade para processar 150 mil toneladas de batata por ano. O produto fica cortadinho, no formato palito.

A estrutura pertence a três irmãos, tradicionais produtores de batata na região. Um deles é João Emílio, que revela a intenção de ter o retorno do investimento em no máximo sete anos.

“O consumo de batata processada no Brasil vem crescendo de maneira bastante significativa nos últimos anos. Nos últimos dez anos cresceu uma média de 14% ao ano. Se a gente comparar que o mercado de batata pré-frita hoje é em torno de 2.1 Kg/per capta ano, enquanto que o europeu, o americano consome mais de 15 quilos de batata processada, a gente acredita que tem muito espaço para crescer nesse segmento”, avalia José Emílio Rocheto, empresário e agricultor.

Para uma fábrica desse tamanho foi usado recurso próprio e financiamento do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento) e de investidores. Diretos e indiretos foram criados cerca de 1.400 empregos. Diante de todo esse gigantismo, como é que ficam os pequenos agricultores lá do sul do estado? Nesse momento é importante lembrar que eles trabalham num outro mercado, o de batata de mesa, a que é vendida diretamente para o consumidor.

Mesmo com as atuais incertezas na comercialização, o agricultor Júlio César, do início da reportagem, arrumou um comprador inesperado. Vendeu 75 toneladas de batata para a Argentina. “Foi melhor a venda e com pagamento antecipado. O sorriso voltou”, conta Júlio César Vilela, agricultor.

A compra foi realizada pelo representante comercial, Alberto Marques, que vai levar a carga para o mercado municipal de Buenos Aires. “Estamos comprando batata brasileira devido a uma falta de qualidade no mercado de batatas lavadas lá na Argentina. A brasileira ganha hoje pela boniteza que ela tem. A pele é mais lisinha e a mulherada compra com os olhos. Enche os olhos para depois encher a barriga”, brinca”, explica Alberto Marques, representante comercial da Argentina.

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Reportagem Original: http://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2017/07/produtores-de-batata-vivem-realidades-distintas-em-minas-gerais.html / Foto Capa: Google Imagens

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