Rafaela Silva e a medalha que ensina muito sobre o Brasil

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Foto: Getty Images/David Ramos

O universo dos esportes Olímpicos é cheio de ironias do destino. E uma delas veio nesta segunda-feira (8), no tatame: a primeira medalha de ouro do Brasil foi no judô, categoria até 57 kg, com Rafaela Silva. A judoca, que viveu dias terríveis em Londres 2012 após ser eliminada por aplicar um golpe irregular na adversária, agora, quatro anos depois, vira orgulho nacional. Mais que um resultado esportivo, essa conquista é cheia de significados, mensagens e lições sobre o Brasil e seu povo. Rafaela é de origem humilde. Veio da Cidade de Deus, comunidade a menos de 10 km do Parque Olímpico que se tornou conhecida mundialmente pelo filme homônimo de Fernando Meirelles (“City of God”), de 2002, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2004.

O pai, Luiz Carlos Silva, era motoboy. A mãe, Zenilda, fazia bicos para reforçar o orçamento. Na infância, Rafaela gostava de brincar com os meninos da Cidade de Deus. Jogava futebol, soltava pipa, jogava bolinha de gude e, vez por outra, precisava se proteger da violência nas cercanias de casa. Uma vez, a prima de três anos teve de ser resgatada no meio de uma troca de tiros. Foi um trauma. Em outra ocasião, Rafaela quis um chinelo, e o pai, com poucos recursos, comprou com dificuldade, mas o calçado foi roubado na sequência. Lembrar do episódio ainda leva a judoca às lágrimas.

“De vez em quando, a gente vendia água mineral no circo, na rua, e as minhas filhas iam comigo para eu ficar de olho nelas. Eu levava uma caixa de isopor grande e a Rafaela, uma menor. Ela costumava se gabar de conseguir vender mais água do que eu porque vendia a um ‘reial’, assim mesmo, falando errado” Zenilda, mãe de Rafaela
Não raro aconteciam desavenças por causa das linhas das pipas cortadas. Entre baixar a cabeça ou desafiar o rival, Rafaela sempre ficava com a segunda opção. Uma vez, a nova campeã do judô, ainda criança, brigou, ao mesmo tempo, com dois meninos. E os colocou para correr. Por essas e por outras, a mãe sentiu o perigo e achou melhor deixar a comunidade – se mudou para uma região próxima – e providenciou uma ocupação para que as filhas não precisassem ajudá-la a vender água na rua. O surgimento do Instituto Reação, ONG criada pelo judoca Olímpico Flávio Canto e por Geraldo Bernardes, veio a calhar. Rafaela começou a treinar judô no local com a irmã, Raquel. Bernardes, que treinava atletas Olímpicos, logo viu o talento da dupla.

Mas não era fácil. A família não tinha como bancar as viagens de Rafaela para as competições e, em alguns momentos, especialmente quando o pai dela se acidentou, era difícil até pôr comida à mesa. A gravidez precoce da irmã judoca também foi outro drama familiar. Mas Rafaela contou com o apoio de seu treinador Bernardes para não desistir dos tatames. Ele fazia vaquinhas para pagar as viagens de Rafaela, arcava com os custos dos remédios do pai dela e doava cestas básicas para a família. Tudo para que ela continuasse sem desanimar.

“Recentemente, a gente passou em um sinal em um dia de muito calor e tinha um menino vendendo balas para os motoristas dos carros. Ela ficou com pena de ver o menino torrando naquele sol. Perguntou se ela comprasse todos os saquinhos de bala ele iria para casa. Ele respondeu que sim, e foi o que ela fez” Luiz Carlos, pai de Rafaela
O esforço parecia que, enfim, traria resultados quando Rafaela se tornou atleta Olímpica e foi para Londres 2012. Mas, ao ser desclassificada nas oitavas de final, enfrentou o racismo nas redes sociais. Foi chamada de “macaca” e recebeu outras tantas mensagens de ódio. Reagiu de forma agressiva, o que tornou o momento ainda mais pesado. Psicologicamente, precisou de ajuda. “Quase desisti do judô depois dos Jogos de 2012”.

Segundo ela, a psicóloga Nell Salgado e o técnico Mário Tutsui impediram. Felizmente. Em 2013 veio a primeira reação com a conquista do Campeonato Mundial, no Rio. Volta por cima Na sequência, porém, a irregularidade nos resultados fez com que ressurgissem as duvidas quanto à vocação dela para vencer. “Passei a perder para atletas que não perdia antes”, lembra.

A judoca, no entanto, reencontrou o foco e seguiu em frente. Chegou ao Rio 2016 não desacreditada, mas sem o mesmo favoritismo de companheiras de equipe que têm desempenhos mais consistentes. No dia da competição Olímpica, porém, tudo isso ficou para trás. Uma a uma, Rafaela foi vencendo as adversárias no caminho até o ouro que a consagrou. Era, enfim, o dia de Rafaela. Flávio Canto viu das arquibancadas em estado de choque. “Inacreditável… Primeira campeã mundial e Olímpica”. Foi tudo que conseguiu dizer. Depois da explosão de emoção e de se jogar nos braços da família, a lembrança de 2012 veio à tona. “Queria mostrar para todos os que me criticaram, falaram que eu era vergonha para a minha família, que eu não tinha capacidade para estar nos Jogos e deveria estar em uma jaula… Queria mostrar para todas essas pessoas que eu posso ser uma das três melhores da minha categoria. Se eu fui a vergonha da minha família, hoje posso dar orgulho a ela.”

Por trás da agressividade nos combates, família garante: Rafaela Silva é sensível (Foto: Getty Images/David Ramos)
O universo dos esportes Olímpicos é cheio de ironias do destino. E uma delas veio nesta segunda-feira (8), no tatame: a primeira medalha de ouro do Brasil foi no judô, categoria até 57 kg, com Rafaela Silva. A judoca, que viveu dias terríveis em Londres 2012 após ser eliminada por aplicar um golpe irregular na adversária, agora, quatro anos depois, vira orgulho nacional. Mais que um resultado esportivo, essa conquista é cheia de significados, mensagens e lições sobre o Brasil e seu povo. Rafaela é de origem humilde.

Veio da Cidade de Deus, comunidade a menos de 10 km do Parque Olímpico que se tornou conhecida mundialmente pelo filme homônimo de Fernando Meirelles (“City of God”), de 2002, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2004. O pai, Luiz Carlos Silva, era motoboy. A mãe, Zenilda, fazia bicos para reforçar o orçamento. Na infância, Rafaela gostava de brincar com os meninos da Cidade de Deus. Jogava futebol, soltava pipa, jogava bolinha de gude e, vez por outra, precisava se proteger da violência nas cercanias de casa. Uma vez, a prima de três anos teve de ser resgatada no meio de uma troca de tiros. Foi um trauma. Em outra ocasião, Rafaela quis um chinelo, e o pai, com poucos recursos, comprou com dificuldade, mas o calçado foi roubado na sequência. Lembrar do episódio ainda leva a judoca às lágrimas.

“De vez em quando, a gente vendia água mineral no circo, na rua, e as minhas filhas iam comigo para eu ficar de olho nelas. Eu levava uma caixa de isopor grande e a Rafaela, uma menor. Ela costumava se gabar de conseguir vender mais água do que eu porque vendia a um ‘reial’, assim mesmo, falando errado” Zenilda, mãe de Rafaela

Não raro aconteciam desavenças por causa das linhas das pipas cortadas. Entre baixar a cabeça ou desafiar o rival, Rafaela sempre ficava com a segunda opção. Uma vez, a nova campeã do judô, ainda criança, brigou, ao mesmo tempo, com dois meninos.E os colocou para correr. Por essas e por outras, a mãe sentiu o perigo e achou melhor deixar a comunidade – se mudou para uma região próxima – e providenciou uma ocupação para que as filhas não precisassem ajudá-la a vender água na rua.

O surgimento do Instituto Reação, ONG criada pelo judoca Olímpico Flávio Canto e por Geraldo Bernardes, veio a calhar. Rafaela começou a treinar judô no local com a irmã, Raquel. Bernardes, que treinava atletas Olímpicos, logo viu o talento da dupla. Rafaela Silva treina no Instituto Reação (Foto: Reprodução/Instituto Reação) Mas não era fácil. A família não tinha como bancar as viagens de Rafaela para as competições e, em alguns momentos, especialmente quando o pai dela se acidentou, era difícil até pôr comida à mesa. A gravidez precoce da irmã judoca também foi outro drama familiar. Mas Rafaela contou com o apoio de seu treinador Bernardes para não desistir dos tatames. Ele fazia vaquinhas para pagar as viagens de Rafaela, arcava com os custos dos remédios do pai dela e doava cestas básicas para a família. Tudo para que ela continuasse sem desanimar.

“Recentemente, a gente passou em um sinal em um dia de muito calor e tinha um menino vendendo balas para os motoristas dos carros. Ela ficou com pena de ver o menino torrando naquele sol. Perguntou se ela comprasse todos os saquinhos de bala ele iria para casa. Ele respondeu que sim, e foi o que ela fez” Luiz Carlos, pai de Rafaela

O esforço parecia que, enfim, traria resultados quando Rafaela se tornou atleta Olímpica e foi para Londres 2012. Mas, ao ser desclassificada nas oitavas de final, enfrentou o racismo nas redes sociais. Foi chamada de “macaca” e recebeu outras tantas mensagens de ódio. Reagiu de forma agressiva, o que tornou o momento ainda mais pesado. Psicologicamente, precisou de ajuda. “Quase desisti do judô depois dos Jogos de 2012”. Segundo ela, a psicóloga Nell Salgado e o técnico Mário Tutsui impediram. Felizmente. Em 2013 veio a primeira reação com a conquista do Campeonato Mundial, no Rio. Volta por cima Na sequência, porém, a irregularidade nos resultados fez com que ressurgissem as duvidas quanto à vocação dela para vencer. “Passei a perder para atletas que não perdia antes”, lembra.

A judoca, no entanto, reencontrou o foco e seguiu em frente. Chegou ao Rio 2016 não desacreditada, mas sem o mesmo favoritismo de companheiras de equipe que têm desempenhos mais consistentes. No dia da competição Olímpica, porém, tudo isso ficou para trás. Uma a uma, Rafaela foi vencendo as adversárias no caminho até o ouro que a consagrou. Era, enfim, o dia de Rafaela. Flávio Canto viu das arquibancadas em estado de choque. “Inacreditável… Primeira campeã mundial e Olímpica”. Foi tudo que conseguiu dizer. Depois da explosão de emoção e de se jogar nos braços da família, a lembrança de 2012 veio à tona. “Queria mostrar para todos os que me criticaram, falaram que eu era vergonha para a minha família, que eu não tinha capacidade para estar nos Jogos e deveria estar em uma jaula… Queria mostrar para todas essas pessoas que eu posso ser uma das três melhores da minha categoria. Se eu fui a vergonha da minha família, hoje posso dar orgulho a ela.”

Rafaela superou o racismo, as dificuldades, se tornou um exemplo de superação, mas não esqueceu suas origens. A agressividade de quando está lutando dá lugar a um coração mole e gentil perto dos amigos. Lembrança da menina que vendia água? Difícil saber. Com sua história, Rafaela mostra que ouro e pobreza, gentileza e agressividade, dificuldade e superação podem estar na mesma frase. Rafaela é a cara do Rio 2016.

 

Reportagem Original:https://www.rio2016.com/noticias/rafaela-silva-e-uma-medalha-que-ajuda-a-ensinar-muito-sobre-o-brasil

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